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Noite de Natal - 24/12/25

  • Foto do escritor: Pe. Luís Fernando Cardoso Viana
    Pe. Luís Fernando Cardoso Viana
  • 25 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Homilia Noite de Natal, 24 de dezembro de 2025

 

Queridos irmãos, poderíamos trazer para a noite de hoje a mesma pergunta feita pelo povo hebreu na celebração da Páscoa: “Por que esta noite é diferente de todas as outras?” De fato, é possível perceber um clima diferente, pois como nos diz a primeira leitura do profeta Isaias: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” E como isso aconteceu? “Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho” E quem é este menino? “Ele traz aos ombros a marca da realeza, o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, pai dos tempos futuros, Principe da paz” E o que ele veio fazer? “Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” Sim, um menino nos foi dado, ele veio para reinar, mas observemos como Ele vem.

 

O evangelho desta noite nos relata de forma dramática seu nascimento. Por um decreto do imperador, Jose e Maria precisam partir em viagem de Nazaré até Belém. Imaginemos o cenário desta viagem. Provavelmente 5 ou 6 dias para percorrer a distância de 150 Km entre uma cidade e outra, José vai a pé e Maria montada em um animal, junto com as provisões necessárias, em meio ao calor do dia e o frio da noite. Quando enfim os dois chegam a Belém, cansados da longa viagem, o que acontece? “Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.” Oh grande contradição! O filho de Deus não tem lugar para nascer, o dono do universo não é acolhido. Para eles resta um estábulo. Não há berço de ouro, mas uma manjedoura, esculpida na pedra para dar de comer aos animais; não há uma habitação limpa e aquecida, mas uma gruta escavada na pedra, suja, fria e sem luz. Exclamo então eu junto com Santo Afonso: 

 

“Ah! Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar naquela gruta para dar à luz! Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; preparam-se-lhes berços incrustados com pedras preciosas, e mantilhas preciosas; e fazem-lhe cortejo os primeiros senhores do reino. E ao Rei do céu prepara-se uma gruta fria e sem luz para nela nascer, uns pobres paninhos para cobri-lo, um pouco de palha para leito, e uma vil manjedoura para o colocar? Onde está a corte, onde está o trono? Meu Deus, assim pergunta São Bernardo, onde está a corte, onde está o trono real deste Rei do céu, porquanto não vejo senão dois animais para lhe fazerem companhia, e uma manjedoura de irracionais, na qual deve ser posto? Ó Gruta ditosa, que tiveste a ventura de ver o Verbo divino nascido dentro de ti! Ó presépio ditoso, que tiveste a honra de receber em ti o Senhor do céu! Ó palha ditosa, que serviste de leito àquele cujo trono é sustentado pelos serafins!”

 

Sim meus irmãos, eis o grande mistério que temos diante dos nossos olhos nesta noite. Um menino recém-nascido. Ele vem para reinar, mas não nasce no palácio, ele é o Deus forte, mas escolhe ser fraco, ele vem para salvar, mas precisa ser salvo dos perigos na infância. Ali, enquanto o mundo dormia, nascia em uma gruta o Emanuel, o Deus conosco. Como diz o livro de Sabedoria, “quando um silêncio apaziguador envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a vossa Palavra onipotente desceu dos céus, do trono real." Sb 18, 14-15


No silencio da noite, se escuta o choro de uma criança, que nasce como um raio de luz, que irrompe as trevas da noite. Sua mãe não sofre as dores do parto, mas o menino chora. Chora para se assemelhar ao homem em tudo, exceto no pecado. Chora por nascer em uma noite fria, sem roupas para o aquecer, a não ser algumas faixas. Chora por não ser acolhido. De fato, como dirá São João: “Ele veio para o que era seu, e os seus não O receberam. Jo 1, 11 Quanta ingratidão, quanta indiferença! Ainda hoje ele não encontra em muitos corações lugar para nascer. Contemplemos este menino, coloquemos nosso olhar nele, e veremos que Ele se fez fraco para nos trazer vida. Somente um Deus louco de amor poderia descer de tal maneira. Ali está, diante de nós, um menino deitado em uma manjedoura. De fato, podemos contemplar com nossos olhos que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Jo 1, 14 Mas como reconhecer a sua divindade, se ele escolheu se esconder na sua kenosis?

Perguntemos a ele junto com Santo Afonso:

“Ó formoso Menino pequenino, dizei-me, de quem és filho? Responde-lhe: Minha mãe é esta linda e pura Virgem, que está a meu lado. E teu pai, quem é? Meu pai é Deus. Mas como? Tu és o Filho de Deus, e és tão pobre, tão humilde? Nesse estado quem te reconhecerá? Quem te respeitará? A santa fé, responde Jesus, me fará conhecer por quem sou, e me fará amar pelas almas que eu vim remir e inflamar em meu amor. Não vim para me fazer temido, senão para me fazer amado, e por isso, quis manifestar-me, a primeira vez que me vedes, como criança tão pobre e humilde, a fim de que assim me ameis com mais ternura, vendo a que estado me reduziu o amor que vos tenho. Mas dizei-me, meu Menino, por que volves os teus olhos para todos os lados? Que estás esperando? Ouço que suspiras, dizei-me: para que são esses suspiros? Ó Deus, ouço que estás chorando, dizei-me por que choras? Ah, responde Jesus, eu olho ao redor de mim, porque estou procurando alguma alma que me queira. Suspiro pelo desejo de ver junto de mim algum coração abrasado em meu amor, assim como estou abrasado em seu amor. Choro, sim, e choro porque não vejo corações, ou vejo-os nimiamente poucos, corações que me procurem e me queiram amar.”


Eis meus irmãos, o nosso Deus, o nosso Salvador, não nos dispersemos com preocupações mundanas. Aqui está aquele que nosso coração deseja. Ele se deixa encontrar por aqueles que o procuram com um coração sincero. Não são necessárias muitas palavras. Basta estar diante dele, no silencio desta noite. Imaginemos a José e Maria, que adoram o menino em silencio. Silencio de amor, de adoração. Silencio de Deus feito homem, feito criança, que nasce sem saber falar, mas que já diz tudo com sua vinda. Quem desejaria estar em outro lugar? Quanto nós precisamos aprender com o silencio da gruta de Belém!


E quem foram os primeiros a receber o anúncio deste grande acontecimento? Alguns pastores, “que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho” Lc 2, 8. Loucura divina. Não são os sábios e inteligentes, nem os chefes dos judeus, nem o sumo sacerdote, mas alguns pastores, pobres e pequenos, esquecidos pela sociedade. Eles são visitados na noite escura de suas vidas, são envolvidos pela glória do Senhor com uma grande luz. E quem é essa luz? O evangelista nos reponde: “O Verbo era a luz verdadeira, que vindo ao mundo ilumina todo o homem.” Jo 1, 9 Ele veio para iluminar as nossas trevas. E por isso lhe pergunto. Es fraco? Ele te faz forte. Es miserável? Ele é a misericórdia. Es pecador? Ele pagará o preço do teu pecado. Sim. Tudo isso Ele o fez por ti. O que esperas ainda? O que mais precisas? Tudo já foi dito por Ele. E Ele não só te salvou, mas te elevou a estar com Ele na glória. Por isso podemos dizer juntos com os primeiros padres da Igreja. “Deus se fez homem para que o homem se fizesse Deus” 


E como isso acontece? Não se trata de ocupar o lugar de Deus. A teologia católica explica esse processo com a comparação do ferro e do fogo. Deus é o fogo e nós somos o ferro. Quanto mais o ferro é tocado pelo fogo, mais ele se torna incandescente pela ação do fogo. Já não há como separar. O ferro não deixa de ser ferro, mas se torna luminoso como o fogo. Essa é a graça que nos é dada. Sermos semelhantes a Deus. E ele faz isso principalmente através da Eucaristia. Veja o que Deus fez por nós. Ele é o pão da vida. Ele nasce em Belém, que é a casa do pão. Ele nasce em uma manjedoura, lugar do alimento. Por isso Santo Afonso dizia: “Sim, fostes ditosos, ó Gruta, ó presépio, ó palha; mais ditosos, porém, são os corações que tenra e fervorosamente amam esse amabilíssimo Senhor, e que abrasados em amor o recebem na santa Comunhão. Oh, com que alegria e satisfação vai Jesus Cristo pousar no coração que o ama!” Eis o que nos é pedido. Permanecer com Ele e reconhecer o que Ele fez por nós. Por isso São Leão Magno dizia em uma homilia para o tempo do Natal: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade! Deixaste de ser 'os seus' que o rejeitaram para serdes participantes da natureza divina. Não voltes à antiga vileza de uma conduta indigna. Lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro. Lembra-te que, arrancado ao poder das trevas, foste transferido para a luz e para o Reino de Deus."


Meus irmãos, nós fomos visitados e arrancados das trevas para a luz. Felizes somos nós que o recebemos e o acolhemos. Amemos o nosso Deus. Correspondamos ao seu amor por nós. Preparemos um lugar para Ele em nosso coração. Ele quer se encontrar conosco. Por fim, termino com um poema de uma jovem francesa que recebeu um milagre na noite de Natal de 1886, ainda com 13 anos de idade. Ela mesmo o diz em seu diário. “Nesta noite de luz... Jesus, a doce criancinha recém-nascida, mudou a noite de minha alma em torrentes de luz... Nesta noite em que Ele se fez fraco e sofredor por meu amor, tornou-me forte e corajosa." Depois desta noite, Santa Teresinha começou a dar passos de gigante em direção a santidade. Que Deus nos conceda esta graça. Que Ele realize o seu milagre em nós. E que todos os santos intercedam por nós e nos ajudem a chegar ao céu. Eis enfim o poema:


​"Ó Jesus, meu Bem-Amado, quem poderá dizer

Com que ternura e amor me vens guiar?

O teu olhar azul sorri para mim no amanhecer,

E eu, pequena, só quero a Ti agradar.

​Não tenho, ó meu Deus, para te consolar,

Nem ouros, nem pratas, nem grande saber;

Só tenho o amor do meu coração para te dar,

E com carícias, Menino, te envolver.

​Ó Pequenino Jesus, Estrela da minha vida,

No teu berço de palha, és o meu Rei.

Aceita esta alma, que a Ti está rendida,

E faz dela o que a tua vontade for lei.

​Se quiseres brincar, serei teu brinquedo,

Se quiseres dormir, serei teu abrigo.

Não tenho do futuro nenhum medo,

Pois o meu Céu é estar contigo."

 

Amém.

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